“CULTURA EM TRABALHO(S)” – CINEMA

Enquanto estudante da Escola Superior de Teatro e Cinema, não sei bem como é suposto posicionar-me neste debate; ainda estou indecisa se o meu lugar é aqui na mesa, ou sentada na plateia. Para muitos, ser estudante do que quer que seja deixou de ser fácil: há as propinas, os passes, as rendas da casa; há o futuro, ou cada vez menos dele, o “depois do curso”, o “para quê tirar o curso”; há todas as dúvidas e todas as incertezas: Para quê estudar cinema? Fazer cinema? Viver do cinema?

Há uma série de profissões que podemos dizer com certeza que irão sempre existir. Mas eu sou estudante de cinema, e por isso pergunto: E o Cinema? Existirá ainda cinema em Portugal quando eu acabar o curso? O meu primeiro ano de Licenciatura coincidiu com a suspensão dos concursos de apoio à produção cinematográfica do ICA durante 2012, um sinal assustador do que poderia vir a ser “o início do fim” do cinema, para quem o faz e para quem o vê. A política que este governo tem seguido relativamente à cultura tem tido um duplo efeito de asfixiamento, bloqueando tanto a atividade de criação artística como a possibilidade de fruição da cultura. Como estudante de cinema, sinto-me lá no meio, na posição mais ingrata: a de quem sabe que para ser cineasta – realizador, argumentista, produtor, diretor de fotografia ou de som, montador, técnico ou assistente em qualquer área do cinema – ainda terá que ver muitos filmes. Duas identidades: entre o cineasta e o espetador-cinéfilo. E ultimamente parece que nos querem privar de ambas. O que fica?

Para os “cinéfilos”, ficam os sites de download “pouco legal” e os ecrãs de computador pessoais para ver os filmes em casa; ficam, quando muito, de vez em quando, os bilhetes da Cinemateca para estudantes de cinema, porque nas grandes salas os preços são insustentáveis (um bilhete numa sala de cinema de um qualquer centro comercial dá para pagar quase cinco na Cinemateca).  Para os “cineastas”, ficam as câmaras fotográficas ou de filmar próprias, ou então as de telemóvel; fica a exibição nas plataformas online de partilha de vídeos e a distribuição pelos amigos e conhecidos das redes sociais. O cinema não acabou com o fim da película (eu sei porque estive lá, nas rodagens dos dois últimos filmes a película da ESTC), mas tenho dúvidas se sobreviverá a isto. Esta forma de fazer cinema na direção da qual caminhamos é a mais amadora de todas, porque só quem ama mesmo o cinema se sujeitaria a fazer cinema nestas condições. Pode ser um tipo de cinema, mas nunca o único.

Na Escola Superior de Teatro e Cinema, ainda nos conseguem dar uma amostra do que pode ser fazer cinema “a sério”. Mesmo assim, nas nossas produções, sentimos que a maior parte dos esforços é canalizada para a resolução de problemas decorrentes da falta de financiamento: como gerir a falta de material por todos os alunos dos três anos; como dividir o tempo de pós-produção de cada filme se só temos uma sala de montagem equipada; como filmamos se, de repente, uma das poucas câmaras disponíveis avariar; como garantir que temos atores, transportes, catering; onde mais cortar o orçamento dos filmes? No meio disto tudo, há o que se perde, os projetos postos de parte, os talentos que nunca se revelam, o potencial que fica por concretizar; só depois de enquadrados por todos os condicionalismos económicos podemos finalmente pensar criativamente que ideias são rentáveis, que filmes são exequíveis. Há um bocado a sensação generalizada de que, salvo raras exceções, estamos a estudar para ir embora ou, pior, para nada. Só no meu ano, somos cerca de 30, e há os anos anteriores e seguintes, e outros cursos e escolas de cinema no País… No entanto, para 2013, o Governo autorizou o ICA a investir em apenas oito novos filmes, dos quais apenas dois serão primeiras-obras. Façam as contas… É que nem há contas para fazer.

Volto à questão inicial: onde me colocar hoje – cá, ainda em Portugal, ou já com um pé no estrangeiro? Olho para a plateia e também me interrogo se terei oportunidade no futuro para provar que o meu lugar aqui, na mesa, do lado dos que fazem, é merecido. Enquanto estudante, restam-me tantos filmes por ver, tantos filmes por escrever – fazer por manter um pé em cada uma das identidades, cinéfila e cineasta, e esperar que não precise de uma terceira perna para ir lá para fora, enquanto (ainda) houver cinema em Portugal.

Bárbara Janicas

8 de fevereiro de 2013

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